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Estudo
revela complexidade do trabalho na agricultura orgânica
Gestores sugerem pesquisas à
academia Sandra
Francisca Bezerra Gemma, enfermeira do trabalho especializada em ergonomia,
está entre os primeiros pesquisadores a olhar a agricultura orgânica pelo viés
de quem a pratica. Complexidade e agricultura: organização e análise ergonômica
do trabalho na agricultura orgânica é o título da tese de doutorado que ela
apresentou na Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp, com a
orientação do professor Mauro José Andrade Tereso e co-orientação do professor
Roberto Funes Abrahão. Em
sua pesquisa de mestrado, a autora já havia destacado a predominância das
tarefas manuais neste segmento agrícola, devido principalmente à eliminação do
uso de agrotóxicos. Agora, no doutorado, ela acompanhou a intensa atividade dos
gestores de unidades de produção em municípios da região de Campinas. “Tendo
atuado por vários anos na indústria e no setor de serviços, conhecer a
agricultura a partir da ótica dos agricultores foi um desafio extremamente
interessante”. A
tese discorre sobre a complexidade do trabalho na agricultura orgânica, por
incorporar preceitos ecológicos, econômicos e sociais de sustentabilidade.
“Muitos autores afirmam que questões ecológicas e econômicas são conflitantes
na maior parte das vezes. Mas é o gestor quem precisa traduzir esses preceitos
em práticas agrícolas, zelando para que a unidade de produção seja viável
economicamente, sustentável ecologicamente e, além de tudo, justa socialmente”.
Num
levantamento em dez propriedades, Sandra Gemma registrou a média de 39 itens de
produção, sendo que algumas superam os 80 itens. “Trata-se de um macro sistema
a ser gerenciado, pois boa parte das unidades tem associada a produção animal
(ovos, leite, mel) e processa produtos como geléias, compotas, polpas de
frutas, queijos, manteiga, iogurte. Cerca de 40% delas ainda mantêm um segmento
de serviços, com turismo rural, recepção a estudantes, cursos e eventos ligados
a agricultura orgânica”. A
capacidade de cada trabalhador em cultivar dezenas de espécies, artesanalmente,
impressionou a enfermeira desde o mestrado. Ela também ouviu as queixas,
sobretudo em relação a tarefas manuais, movimentos repetitivos, posições
incômodas, dores nas costas, exposição a intempéries. “São problemas comuns no
trabalho agrícola, mas que podem se agravar ou se tornar mais freqüentes na
agricultura orgânica”. As
ervas daninhas da horta, por exemplo, na agricultura convencional são
eliminadas com herbicidas. Na agricultura orgânica, elas são arrancadas
manualmente. “Outra atividade repetitiva e desgastante é o ensacamento de
frutas no pé, como da goiaba, embrulhada uma a uma para protegê-la de doenças e
pragas. Muitas vezes, esse trabalho é feito em cima de escada e em terreno
inclinado, com os braços esticados acima da cabeça”. Saber tácito – Na estrutura predominantemente
familiar (quando há empregados, são poucos) destaca-se a figura do gestor,
objeto central do estudo de Sandra Gemma. “Ele deve ter um olhar clínico sobre
o agroecossistema (terra, clima, água, policultivos, animais) e suas
interações. É um conhecimento chamado de saber tácito, desenvolvido no
cotidiano do trabalho. Se na agricultura convencional existe um receituário
pronto, na orgânica cada unidade deve ser vista e cuidada como um ser vivo”. Ao
gestor cabe tomar uma série de decisões relacionadas com os múltiplos cultivos,
desde o preparo do solo e o plantio, passando pelos tratos culturais, a
colheita, até o beneficiamento pós-colheita. “Ele se responsabiliza por tarefas
de produção e ainda se incumbe de toda a parte administrativa, planejando e
coordenando as diversas atividades, contratando pessoal e gerindo as finanças e
o patrimônio familiar”. Além
de planejar e executar a produção, o gestor tem de vendê-la, o que é mais um
elemento de complexidade em seu trabalho. “A maior parte dos gestores mantém
vários clientes: o consumidor da feira, as redes de supermercados, os lojistas
e aqueles que compram pela Internet, entre outros. Um dos entrevistados possui
mais de cem clientes de naturezas diversas”. A
pesquisadora lembra que os produtos da agricultura orgânica devem ser
certificados para comercializa-ção, o que leva o gestor a cuidar do atendimento
à prescrição das certificadoras, cujas normas equivalem, grosso modo, aos de
programas ISO para empresas. “Além da certificação, ele deve lidar também com a
legislação ambiental, pois outra tarefa importante é a de reflorestamento e
recuperação da mata ciliar”. Complexidade – Sandra Gemma limitou a primeira parte
da pesquisa a duas unidades de produção, em Itu e Jarinu, simplesmente por que
outros gestores não puderam recebê-la devido à carga de trabalho. Ainda assim,
por dez meses, teve de recorrer mais à observação direta do que a entrevistas
com os dois produtores, até reunir conhecimentos para elaborar um questionário
destinado a outros proprietários, “O
trabalho do gestor é vital para a produção orgânica, já que tudo é arquitetado
por ele. Mesmo que para o observador seja difícil saber tudo o que contém a
‘caixa preta’, procuramos ver o que ele faz, por que faz, como faz e,
principalmente, quais são as estratégias que desenvolve para superar as
dificuldades”, explica a pesquisadora. Daí,
a tese de doutorado estar fundamentada na Teoria da Complexidade, de Edgar
Morin, segundo a qual a organização vai sendo construída constantemente,
através da ordem, da desordem e da interação. A cada dia surgem novos desafios,
que exigem capacidade de improvisação. “É exatamente o que vimos: o agricultor
lidando com uma diversidade enorme de cultivos, em ambiente de pouca tecnologia
e conhecimento”. A
grande demanda por pesquisas na agricultura orgânica, conforme ressalta a
autora, é um desafio para a academia. “Os produtores pedem o desenvolvimento de
variedades de plantas adaptadas para manejo orgânico, técnicas de controle de
pragas e doenças (em plantas e animais), estudos que favoreçam a logística de
comercialização e um herbicida orgânico para que não precisem arrancar ervas
daninhas com as mãos”. Sem estresse – A saúde física e mental demonstrada
pelos produtores, apesar do trabalho excessivo e das dificuldades para
sustentar a atividade, é um tema que mereceria outra tese, na opinião de Sandra
Gemma. “Afora algumas queixas de dores, não encontrei ninguém incapacitado ou com
problemas crônicos. Poderíamos tentar descobrir por que, havendo tanto risco,
essas pessoas adoecem tão pouco”. A
multiplicidade de tarefas e a possibilidade de gerenciar o próprio tempo,
pausando o trabalho quando há dor ou cansaço, são fatores que contribuem para
evitar a sobrecarga. No entanto, a impressão da pesquisadora é de que a força
maior vem do significado que eles atribuem ao próprio trabalho. “Os
produtores encaram os seus desafios como nobres, têm orgulho do que fazem.
Sentem-se comprometidos com o meio ambiente e a saúde das pessoas. Acho que a
ergonomia pode contribuir para aprimorar a produção orgânica, na tentativa de
que ela também carregue em si as bases para um trabalho humano mais sustentável
na agricultura”, finaliza. Alguns dados no Brasil e no mundo Os
países com as maiores áreas cultivadas organicamente são a Austrália (11,8
milhões de hectares), Argentina (3,1 milhões), China (2,3 milhões) e EUA (1,6
milhão). O
Brasil vem na 6ª posição mundial, com 842 mil hectares (o triplo da área
ocupada em 2001), e a 2ª posição na América Latina, atrás da Argentina. Os
países com maior número de produtores são México (83.174), Itália (44.733),
Uganda (40.000), Sri Lanka (35.000) e Filipinas (34.990); o Brasil ocupa a 14ª
posição (15.000). O
Brasil evoluiu de As
grandes unidades brasileiras (com mais de Atualmente,
começa a despontar a pecuária orgânica em áreas extensivas. No país, o total de
bovinos que estão em conversão para o manejo orgânico chega a 600.000 animais. Pesquisa mundial aponta para cerca de 31 milhões de hectares cultivados
organicamente, por 634 mil agricultores, sendo que a Oceania detém 39%
da área agrícola, seguida pela Europa com 23% |
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